26.4.06:

A Praga de Luís Alberto.

Essa coisa entre a gente está ficando mais séria do que eu gostaria. - Ele começou com algo assim e não foi necessário se adiantar mais para que ela entendesse do que se tratava. Ficou consternada e furiosa, mas se manteve firme. - Que burra eu, achar que comigo seria diferente, que burra eu, Luís Alberto. - Tentou se justificar dizendo que queria outra coisa para sua vida e que o lance entre eles começava a fugir ao controle. Pediu que parassem por ali, mas que continuasse sua amiga. - Sua amiga? E você lá tem amigas, Luís Alberto? Que amigas você tem? - Ela repetia o seu nome o tempo todo e ele gostava de estar, de certa forma, na boca dela. Mas se incomodou dessa vez. - Você não tem amigas, Luís Alberto, você tem apenas transas, transas Luís Alberto! - Cada repetição desnecessária do nome dele soava como uma punhalada, repetida também e desnecessária.

Era e continuou verdade ao longo dos anos, ele não tem amigas, apenas transas e, talvez por ser hetero e suas relações sociais serem todas de cunho profissional ou sexual, também não tem amigos, colegas, camaradas, chapas, chegados apenas. - Um dia, um dia, Luís Alberto, você se arrependerá, não por mim, nem por esse momento, mas pelo estilo de vida que você escolheu. - Marejaram os olhinhos de jabuticaba e, antes que ele pudesse vê-los transbordar, miraram a porta e sumiram pela rua. - Um dia você se arrependerá, Luís Alberto! - Do lado de fora, palavras desconexas esparramadas na calçada. Do lado de dentro, juízes e carrascos camuflados sob olhos de raposa esgueirando-se por entre as mesas. Pagou a conta diretamente no caixa e fugiu daquele lugar. - Burro eu, burro eu, logo num lugar público... - Pensamentos audíveis, dispersados no asfalto, poluindo os humores.

O quadragésimo segundo dezembro perdido entre estúdios e redação, mensurável através de toques e cliques não lhe deixou tempo para conhecer ninguém, nenhuma amiga para ligar. Também não vai para casa de parentes ouvir sobrinhos chamarem-no tio. Está sozinho outro Natal e as palavras novamente retumbam no seu cérebro. - Um dia você se arrependerá, Luís Alberto! - Ficaram impregnadas no seu ser, tal qual a coca, o álcool, a nicotina e o alcatrão. E será assim a noite toda, ela se levantará, lhe virará as costas e dirá as palavras. Ela sumirá rua afora e ele escutará as saudações e risadas no apartamento de cima, várias e muitas vezes.

Uma dose, uma bebida, um cigarro, uma picada, noite afora. Doses, tragos, picadas, palavras na calçada, risadas no apartamento de cima. Olhos opacos, pálidos lábios, rouca voz, vê e ouve-a, seu fantasma, sua praga. - Luís Alberto, Luís Alberto, Luís Alberto... - Outra dose, outra picada, outro trago, outro cigarro, noite afora. A tosse, a dor, o pigarro, o enjôo, noite afora. Última picada, última dose, último cigarro, o vômito, o espasmo, o fim. Silêncio no apartamento de cima e as palavras ainda na calçada - Luís Alberto, Luís Alberto, Luís Alberto...


por Ziggy Stardust as 12:25

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